"Era verdade que o retrato ainda
preservava, sob toda podridão e feiura do rosto, sua marcada semelhança consigo
mesmo (...)"
Imagine que, em um determinado dia, um pintor
o aborda e, aos poucos, insinua a possibilidade de passar a sua imagem para um
quadro. Imagine, também, que estamos na Inglaterra vitoriana do século XIX e
que você, um belo rapaz, terá a oportunidade de registrar a sua imagem para
todo o sempre; isso, é claro, em um tempo em que não se poderia nem se quer
sonhar com máquinas fotográficas. Entediado, e sem maiores perspectivas de
mudanças em sua vida, você aceita a oferta. Entretanto, após a pintura, ao se
mirar no quadro, você se apaixona pela imagem que ele retrata e que, seu único
desejo, naquele instante, era que, tal como a imagem retratada no quadro, sua
aparência jamais se modificasse. Agora, imagine se isso, de fato, viesse a
acontecer... O quadro, porém, não absorve somente as rugas que os anos lhe
infringem, mas sim as mazelas e obscuridades da alma humana. Como seria este
quadro?
É exatamente a partir deste ponto de reflexão
que Oscar Wilde obtém a ideia de escrever o livro "O retrato de Dorian
Gray", história de um jovem que, após ser retratado pelo pintor Basil
Hallward se apaixona pela própria imagem e, deseja, do fundo de seu ser, que o quadro
envelheça, pois, segundo Gray:
"- Tenho ciúmes de tudo cuja beleza não
morre. Tenho ciúmes do retrato que você pintou de mim". Porque eu deveria
guardar o que seguramente perderei? Cada momento que passa leva algo de mim e
dá algo a ele. Oh, se pudesse ser o inverso! Se o retrato pudesse mudar e eu
puder sempre ser o que sou agora! Por que você o pintou? Ele zombará de mim,
algum dia - zombará terrivelmente!"
O que era para ser um desejo de eterna alegria
e juventude, torna-se um martírio para o belo jovem. Aos poucos, vira um
pesadelo. Com o passar do tempo, o retrato se torna cada vez pior. Conforme a
vida dupla do personagem vai se consolidando como parte de seu ser, a podridão
do retrato torna-se mais assustadora e visível.
Há, na obra, diversas insinuações de
atividades ilegais, tais como assassinatos, que o jovem Gray poderia estar
realizando, enquanto mantinha sua vida de aristocrata e, ao mesmo tempo,
frequentador das casas de teatro mais pobres da cidade. Seus crimes,
logicamente, atingiam as classes menos abastadas e que não possuíam meios de se
defender. Entretanto, a dupla atividade do rapaz vai se refletindo gradualmente
no retrato, enquanto este fica a cada dia mais terrível, na mesma
proporcionalidade em que o jovem se torna cada vez mais belo.
Dorian escondia o retrato no porão de sua
casa, tal como, com frequência, fazemos com as nossas falhas, e o mantinha
coberto por um pano grosseiro. Entretanto, era frequentemente atormentado pela
possibilidade da exposição das mazelas de sua alma, tal como se pode notar na
passagem a seguir:
"Às vezes, quando ele estava em sua
grande casa em Nottighamshire, entretendo os sofisticados jovens de sua mesma
posição social, que eram seus principais companheiros e surpreendendo o condado
com a sua devassa luxúria e belo esplendor de seu modo de vida, repentinamente
deixava seus convidados e corria para a cidade, para ver se a porta não havia
sido violada e se o retrato ainda estava lá. E se ele fosse roubado? O mero
pensamento o fazia gelar de horror. Certamente o mundo descobriria seu segredo,
então. Talvez o mundo já suspeitasse dele"".
Por meio de Lord Henry Wotton o autor nos
mostra a base do esteticismo, uma escola artística que defendia a arte de e
para a arte. Defendia o culto ao belo e ao artístico. Por conta disso, a beleza
do jovem Gray pode ser tida como o ponto principal do romance. Henry é apresentado
a Dorian no dia em que Basil finaliza o seu retrato e, de forma bastante
sarcástica, defende seus pontos de vista e o culto à beleza e à juventude. Há,
entretanto, uma leve insinuação de um relacionamento entre os três personagens
(não de forma conjunta) que parece bastante ousada para a época em que a obra
foi redigida. Tanto isto é real, que a primeira versão publicada sofreu
diversos cortes pelo editor. A versão lida por mim contém os trechos
censurados, os quais, em si, contêm apenas insinuações de tal relacionamento.
Ainda acerca dos relacionamentos, vemos o
encantamento do jovem Gray pela atriz Sybil Vane, uma atriz dessas casas de
teatro das classes mais pobres. A adoração que Dorian sente pela jovem,
reflete, e muito, o culto pela beleza que Oscar Wilde quer representar na obra.
Não sei dizer exatamente se esta pode ser tida
como uma obra de terror, a não ser pelas cenas que dizem respeito às mudanças
que o retrato sofre, bem como o grande final que Wilde soube dar para a obra.
Entretanto, não existe a possibilidade de ler este livro e imaginar o quanto de
Gray carregamos conosco ou, como seria nossa vida se tivéssemos a alma exposta
em um retrato pintado à óleo.
Esse livro parece ser muito interessante!
ResponderExcluirPuxa, agora quero saber o final...
Fiquei pensando que é mesmo estranho que nós hoje vivemos os quandros perfeitos, as máscaras que julgamos serem bem aceitas, e com isso escondemos nosso ser verdadeiro no porao!
Obrigada Talitinha!