sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

RESENHA: O RETRATO DE DORIAN GRAY - OSCAR WILDE






"Era verdade que o retrato ainda preservava, sob toda podridão e feiura do rosto, sua marcada semelhança consigo mesmo (...)"


 Imagine que, em um determinado dia, um pintor o aborda e, aos poucos, insinua a possibilidade de passar a sua imagem para um quadro. Imagine, também, que estamos na Inglaterra vitoriana do século XIX e que você, um belo rapaz, terá a oportunidade de registrar a sua imagem para todo o sempre; isso, é claro, em um tempo em que não se poderia nem se quer sonhar com máquinas fotográficas. Entediado, e sem maiores perspectivas de mudanças em sua vida, você aceita a oferta. Entretanto, após a pintura, ao se mirar no quadro, você se apaixona pela imagem que ele retrata e que, seu único desejo, naquele instante, era que, tal como a imagem retratada no quadro, sua aparência jamais se modificasse. Agora, imagine se isso, de fato, viesse a acontecer... O quadro, porém, não absorve somente as rugas que os anos lhe infringem, mas sim as mazelas e obscuridades da alma humana. Como seria este quadro?

 É exatamente a partir deste ponto de reflexão que Oscar Wilde obtém a ideia de escrever o livro "O retrato de Dorian Gray", história de um jovem que, após ser retratado pelo pintor Basil Hallward se apaixona pela própria imagem e, deseja, do fundo de seu ser, que o quadro envelheça, pois, segundo Gray:


 "- Tenho ciúmes de tudo cuja beleza não morre. Tenho ciúmes do retrato que você pintou de mim". Porque eu deveria guardar o que seguramente perderei? Cada momento que passa leva algo de mim e dá algo a ele. Oh, se pudesse ser o inverso! Se o retrato pudesse mudar e eu puder sempre ser o que sou agora! Por que você o pintou? Ele zombará de mim, algum dia - zombará terrivelmente!"

 O que era para ser um desejo de eterna alegria e juventude, torna-se um martírio para o belo jovem. Aos poucos, vira um pesadelo. Com o passar do tempo, o retrato se torna cada vez pior. Conforme a vida dupla do personagem vai se consolidando como parte de seu ser, a podridão do retrato torna-se mais assustadora e visível.

 Há, na obra, diversas insinuações de atividades ilegais, tais como assassinatos, que o jovem Gray poderia estar realizando, enquanto mantinha sua vida de aristocrata e, ao mesmo tempo, frequentador das casas de teatro mais pobres da cidade. Seus crimes, logicamente, atingiam as classes menos abastadas e que não possuíam meios de se defender. Entretanto, a dupla atividade do rapaz vai se refletindo gradualmente no retrato, enquanto este fica a cada dia mais terrível, na mesma proporcionalidade em que o jovem se torna cada vez mais belo.

 Dorian escondia o retrato no porão de sua casa, tal como, com frequência, fazemos com as nossas falhas, e o mantinha coberto por um pano grosseiro. Entretanto, era frequentemente atormentado pela possibilidade da exposição das mazelas de sua alma, tal como se pode notar na passagem a seguir:

 "Às vezes, quando ele estava em sua grande casa em Nottighamshire, entretendo os sofisticados jovens de sua mesma posição social, que eram seus principais companheiros e surpreendendo o condado com a sua devassa luxúria e belo esplendor de seu modo de vida, repentinamente deixava seus convidados e corria para a cidade, para ver se a porta não havia sido violada e se o retrato ainda estava lá. E se ele fosse roubado? O mero pensamento o fazia gelar de horror. Certamente o mundo descobriria seu segredo, então. Talvez o mundo já suspeitasse dele"".

 Por meio de Lord Henry Wotton o autor nos mostra a base do esteticismo, uma escola artística que defendia a arte de e para a arte. Defendia o culto ao belo e ao artístico. Por conta disso, a beleza do jovem Gray pode ser tida como o ponto principal do romance. Henry é apresentado a Dorian no dia em que Basil finaliza o seu retrato e, de forma bastante sarcástica, defende seus pontos de vista e o culto à beleza e à juventude. Há, entretanto, uma leve insinuação de um relacionamento entre os três personagens (não de forma conjunta) que parece bastante ousada para a época em que a obra foi redigida. Tanto isto é real, que a primeira versão publicada sofreu diversos cortes pelo editor. A versão lida por mim contém os trechos censurados, os quais, em si, contêm apenas insinuações de tal relacionamento.

 Ainda acerca dos relacionamentos, vemos o encantamento do jovem Gray pela atriz Sybil Vane, uma atriz dessas casas de teatro das classes mais pobres. A adoração que Dorian sente pela jovem, reflete, e muito, o culto pela beleza que Oscar Wilde quer representar na obra.

 Não sei dizer exatamente se esta pode ser tida como uma obra de terror, a não ser pelas cenas que dizem respeito às mudanças que o retrato sofre, bem como o grande final que Wilde soube dar para a obra. Entretanto, não existe a possibilidade de ler este livro e imaginar o quanto de Gray carregamos conosco ou, como seria nossa vida se tivéssemos a alma exposta em um retrato pintado à óleo.



Um comentário:

  1. Esse livro parece ser muito interessante!
    Puxa, agora quero saber o final...

    Fiquei pensando que é mesmo estranho que nós hoje vivemos os quandros perfeitos, as máscaras que julgamos serem bem aceitas, e com isso escondemos nosso ser verdadeiro no porao!

    Obrigada Talitinha!

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